
NOITE NO SESC
Uns trocados no bolso. Semana que vem recebe o salário. Hoje teve que pedir emprestado para mãe. Ah, ficar sem ir lá seria dureza. A turma se encontrando. O penteado tipo moicano na cabeça desola a mãe e faz rir a avó. A calça jeans vai rasgada de propósito, contrastando com o colarinho fechado até o pescoço da camisa de manga longa. Perfumado, com os dentes escovados.
No percurso ao ponto de ônibus, óbvio que chamará atenção. É um bairro popular, simples, mais tolerante com as diferenças. Porém, todo o jovem tem dom nato para chamar atenção, e o comerciário de 20 anos não ficaria atrás. A semana inteira na casa de ração, servindo a clientela joseense. No fim de semana, dá-se o direito de ser servido no baile promovido pelo SESC. As músicas da estação e a companhia de colegas da escola o animam.
Salta do ônibus na Avenida José Longo. Segue rumo ao Parque Santos Dumon. A fila que avista em frente do SESC é de desanimar, mas não a ele, que a tem por rotina. Mesmo por que decorrido alguns minutos, atrás dele chega alguém que puxa papo. Quando vê está no guichê pedindo o bilhete.
Se o som do lado de fora é animador, imagina lá dentro. Em 1989, a domingueira do SESC mostra uma faceta inusitada. Consegue agregar várias tribos. A classe média e alta da Capital do avião aceita dividir espaço com a periferia. Que fique bem entendido: periferia que curta o estilo de música que balança a estruturada do SESC.
À porta do clube, o comerciário ouve o som do Duran Duran. Entra. A casa cheia. As tribos, apesar de liberais, demarcam territórios. O comerciário é desses raros exemplos que tem seu acesso permitido a todas as tribos, claro, não sem a cara feia deste ou daquele partidário mais conservador. Num momento o veremos no meio de três meninas que acabaram de chegar da Irlanda, albergadas na casa de uma colega no bairro Esplanada. Noutro instante, proseia na turma de uns rapazes do Colonial, que figura como o bairro mais temido da cidade.
Deixando o papo de lado, foi arrastado pelo som da música Que País É Este e lá no meio da quadra chama atenção pelo estilo de dança. Não que sua forma de dançar seja inusitada, é que espelha prazer genuíno nos movimentos agitados e contagia os colegas a seguir o ritmo.
Na segunda-feira do dia seguinte, tomará o ônibus lotado, com a marmita a dividir espaço com os cadernos na mochila. À tardinha, sairá corr endo para estar na vila Nair às 19h, horário que começa a aula na EE Euclides Bueno Miragaia. O jovem sacode a cabeça, como dizendo que amanhã pensa nisso, hoje é dançar, dançar e dançar...
*escritor, psicólogo da fundação casa São Paulo e colunista em jornais. www.twitter.com/ronaldo_duran