Mateus Solano tenta reinventar heróis românticos em 'Gabriela'

Por: Terra Brasil
29/07/2012 - 22:24:00

Por: Geraldo Bessa

Mateus Solano é um ator de ambições artísticas. No entanto, ironicamente, seu porte alto e a cara de "bonzinho" o destinaram ao limitado posto de mocinho na tevê. "Não quero me repetir. Por isso, vou a fundo na humanização de meus personagens. Por mais bonzinhos que eles sejam, quero que tenham variações", conta o intérprete do Mundinho Falcão, de Gabriela. Na pele de mais um bom sujeito, Mateus assume que tentou fugir dos galãs e mudar de tipo.

Em 2009, ele interpretou o músico Ronaldo Bôscoli em 'Maysa - Quando Fala o Coração'

Mas, desde que estourou na televisão na pele de Ronaldo Bôscoli em Maysa - Quando Fala o Coração, de 2009, ele repete o posto sucessivamente. No mesmo ano, encarou a missão de forma dupla com os gêmeos de Viver a Vida. E, ano passado, deu vida ao ingênuo Ícaro, de Morde & Assopra. "Mundinho é um galã diferente. Ele não vive apenas uma linda e desencontrada história ao lado de Jerusa (Luiza Valdetaro). Ele tem convicções políticas e promove profundas transformações sociais em Ilhéus. É um mocinho ousado e até petulante", detalha o ator de 31 anos.

Mateus viveu o cientista Ícaro na novela 'Morde & Assopra' em 2011

Brasiliense, mas criado no Rio de Janeiro, Mateus interessou-se pelos palcos ainda criança. A partir das experiências em peças amadoras da Escola Parque, ele decidiu se formar em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. A intensa produtividade do ator no teatro durante 12 anos resultou em um destaque tardio na televisão. "Fiquei conhecido do grande público aos 27 anos. Acho que foi bom ter acontecido dessa forma. Encontrei na tevê uma outra plataforma de trabalho e não o deslumbre com a fama", analisa.

TV Press - Depois de pequenas participações na tevê, como em JK, de 2006, você vem acumulando papéis de destaque a partir de Maysa - Quando Fala o Coração, exibida em 2009. O crescimento de seus personagens mudou sua relação com a televisão?

Mateus Solano - Não ligo muito para o tamanho dos meus papéis nas tramas. Acho que, simplesmente, depois de muito tempo de dedicação ao teatro, resolvi fazer tevê com mais afinco. Antes eu não conseguiria conciliar minha rotina e me comprometer com uma novela, pois ainda tinha muito a fazer no teatro, tinha ânsia de estar no palco. Por exemplo, assim que terminei JK, tive a chance de entrar em uma novela e não aceitei porque queria fazer o espetáculo O Perfeito Cozinheiro das Almas Deste Mundo, em 2007.

O ator, que é famosos por sempre interpretar mocinhos, falou sobre o assunto: "não quero me repetir. Por isso, vou a fundo na humanização de meus personagens. Por mais bonzinhos que eles sejam, quero que tenham variações."TV Press - E quando você sentiu vontade de fazer tevê?

Mateus Solano - Em 2008 eu estava disposto a tentar. Por isso, coloquei meu vídeo no banco de dados da Globo. Mas de nada adiantou (risos). Tempos depois, estava em temporada com uma peça, e ao final do espetáculo, um produtor da emissora veio falar comigo. Até disse que tinha meu vídeo cadastrado no "site" da empresa, mas ele não tinha visto. De uma forma especial, meus primeiros papéis interessantes na tevê foram motivados pelo meu desempenho nos palcos. Me orgulho disso. Hoje meu negócio é atuar, não importa onde.

TV Press - Gabriela é o quarto trabalho consecutivo no qual você interpreta um dos personagens principais da trama. Coincidentemente, todos esses papéis foram de galãs. O rótulo incomoda?

Mateus Solano - Eu faço o maior esforço para não me repetir. Posso ter feito apenas galãs, mas acho que eles são bem diferentes entre si. Por exemplo, do Ícaro, de Morde & Assopra (2011), para o Mundinho existe um vácuo enorme. O primeiro tinha tintas filosóficas e estava inserido em um contexto de ficção científica. Era aficionado por robôs e até chega a construir uma androide. Atualmente, meu personagem tem dois pontos interessantes que me instigam muito: a política e um amor "shakespeariano" com tempero tropical. São dois galãs? Sim. Mas antes de tudo, são bons personagens. Eu tentei buscar personagens mais diversos, mas na tevê isso é complicado.

TV Press - Por quê?

Mateus Solano - O ator funciona por convites. O processo de escalação de uma trama pertence mesmo aos autores, diretores e produtores de elenco. Tenho de respeitar meu contrato com a emissora e dançar conforme a música. Uma hora, você tem boas surpresas, como foi em Viver a Vida (2009). Interpretar os gêmeos me fez aprender muito de tevê. O fato de ter trabalho em dobro foi desgastante, ao mesmo tempo em que tive uma experiência profissional intensa. Vi que tinha de começar do zero, que os meus 13 anos dedicados ao teatro seriam apenas referência. Um novo ator, específico para a tevê, tinha de emergir.

TV Press - Apesar de confusa, Morde & Assopra foi bem na audiência. Você ficou satisfeito com o resultado final deste trabalho?
Mateus Solano - Desde o início, estranhei muito o personagem. Não conseguia acreditar nele. Era a primeira vez que eu estava trabalhando com o Walcyr Carrasco (autor que também assina o "remake" de Gabriela), mas mesmo inseguro com o papel, embarquei na viagem. Estudei as emoções, li muito sobre robótica, fui gravar no Japão. Aos poucos, encontrei a motivação que aquele trabalho merecia. A novela sofreu algumas alterações, e apesar de ganhar uma dose extra de sensibilidade, meu personagem foi bem fiel ao que estava na sinopse. Por fim, acho que, pelo horário e pela abordagem, esse trabalho me apresentou ao público infantil. A resposta foi boa.

TV Press - O que o Mundinho Falcão pode agregar à sua trajetória?

Mateus Solano - Não tenho como prever, mas já agregou ao meu lado pessoal. Eu nunca tinha lido Jorge Amado com atenção, mas quando surgiu a possibilidade de fazer o papel, mergulhei nos livros dele, em especial Gabriela, Cravo e Canela, de 1958, e Cacau, de 1933. Foi uma descoberta! Existem grandes histórias por trás do amor entre a Gabriela e o Nacib. A do Mundinho é a mais politizada, lida com o progresso em uma Ilhéus dominada por coronéis. Mexe com a tradição e com os conceitos em um momento onde o mundo inteiro está em transição.

TV Press - Seu personagem é citado desde o início da trama, mas só apareceu na terceira semana. Você chegou a gravar alguma cena em Ilhéus ou limitou-se aos estúdios da Globo?

Mateus Solano - Infelizmente, gravei apenas duas cenas na cidade. Mas foram cenas importantes: a da procissão e o retorno dele à cidade. Mas tomado pela empolgação de ler o livro, viajei para Ilhéus e fiquei duas semanas lá. Observando, sentindo o clima e me inspirando.

TV Press - Na novela de 1975, Mundinho foi interpretado por José Wilker, que nesta nova versão dá vida ao Coronel Jesuíno. Vocês chegaram a conversar sobre o papel?

Mateus Solano - Bem pouco. Trocamos experiências sobre as duas versões. Minha curiosidade ia além do trabalho dele como Mundinho. O Wilker me falou coisas interessantíssimas sobre a primeira versão. Uma história de bastidor foi a mais inspiradora.

TV Press - Qual?

Mateus Solano - Segundo o Wilker, na versão de 1975, o Mundinho chegou em Ilhéus trazendo movimento à trama no sentido mais puro da palavra. As câmaras da novela estavam estáticas até a chegada dele à cidade. Quando ele pisa em Ilhéus, as imagens da novela ganharam agilidade e movimentação. Coisas da cabeça do Walter Avancini (diretor-geral da primeira versão). Apesar de ser uma questão de linguagem, puramente estética, esse detalhe me disse muito sobre o papel.

TV Press - Mas você está pronto para possíveis comparações do seu Mundinho com o de Wilker?

Mateus Solano - É bobagem comparar. A primeira versão é de 1975. Mesmo que tivesse sido exibida há dois anos, cada ator tem seu jeito e cada personagem é um mundo a ser descoberto e redescoberto. Com muita humildade, quero mostrar uma versão totalmente minha do Mundinho.

TV Press - Seu personagem fica até o fim de Gabriela, previsto para outubro. Você já arquiteta algum projeto para depois da novela?

Mateus Solano - Como não consigo conciliar trabalhos. Vou esperar o fim de Gabriela, tirar alguns dias de férias e colocar em prática uma nova peça de teatro com direção do Jefferson Miranda, um diretor que eu já trabalhei algumas vezes e cuja linguagem me atrai muito. A peça chama-se Do Tamanho do Mundo, de Lourenço Mutarelli. Sabe aquele texto que deixa você agoniado? Fiquei com muita vontade de fazer, devo começar os ensaios em novembro e estrear no início de 2013.

Preparação constante 

Mesmo com uma história breve na tevê, Mateus Solano já se sente bem íntimo do "modus operandi" dos estúdios. Por estar sempre no posto de protagonista, o ator sabe muito bem da responsabilidade na preparação de seus personagens e na escala industrial de cenas destinadas ao elenco principal. Ainda assim, Mateus se surpreendeu com o trabalho diferenciado imposto pela equipe de Gabriela. "É um esquema de novela, só que mais bem pensado e elaborado. Temos mais tempo para criar. E a preparação continua em paralelo às gravações", explica.

Ao lado da atriz Bruna Linzmeyer, participou de um episódio de 'As Brasileiras'

Já com os personagens azeitados, a novela ainda conta com o auxílio dos preparadores de elenco e professores de prosódia contratados pela Globo exclusivamente para a trama, ambientada na movimentada Ilhéus dos anos 20. "Por ser uma novela de época, essa ajuda é muito importante. É a primeira vez que vejo isso ir além dos 'workshops'. É bom para o elenco se sentir mais seguro em cena", avalia.

Mateus Solano, que interpreta atualmente o mocinho Mundinho Falcão, em 'Gabriela', falou sobre sua carreira no teatro e na televisão durante entrevista

Outros ares


Entre uma novela e outra, Mateus Solano adora fazer pequenas participações em outras produções globais. No intervalo entre Morde & Assopra e Gabriela, por exemplo, ele aproveitou para trabalhar com as equipes dos seriados A Mulher Invisível, no ano passado, e As Brasileiras, no episódio "A Vidente de Diamantina", exibido em maio deste ano. "É gostoso sair um pouco desses trabalhos de longa duração e me exercitar em outros produtos da casa. Infelizmente, a falta de tempo não me deixa fazer mais coisas. Ainda tenho uma filha para tomar conta", ressalta, aos risos, o pai da pequena Flora, de 1 ano e 9 meses.

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