
Ivan Ferretti (*)
Ao longe se avistava através dos galhos desnudos da maldita caatinga, as folhagens solanáceas do juazeiro. Sentado ao alpendre um homem, com seu olhar de boi manso, contemplava na planície avermelhada um fio de nuvem que sumia no azul solitário do céu.
Ouviu naqueles confins do mundo o canto do mulungue, ave agourenta, prenúncio do mal, sinal de desgraça! Aos seus pés a terra seca devastava-lhe a alma, cozinhando-lhe a pele sob o chão craquelado daquele pedaço de inferno onde havia se confinado.
Os seus filhos brincavam de pés descalços e secos. Olhos baços e secos. Cabelos de arame seco. Risos secos de fome, cobertos pelo pó da terra rude que parecia pegar fogo ao menor contato de quem se atrevia a fugir da proteção de um mísero pedaço de sombra que, assim como a água, era disputado tal qual o mais valioso dos tesouros concebidos por Deus.
E realmente naquele lugar desprezível era aquilo que contava. Era exatamente aquele pouco de quase nada que ainda mantinham vivos aqueles farrapos humanos esquecidos naquela parte do umbral. Sua companheira morrera a menos de um mês. Morrera de sofrimento, coitada. Sofrimento de tanto ver os filhos sofrerem.
-Quando será? --Perguntou-lhe um dos filhos estendendo a cuia vazia.
E o homem, com olhos de boi manso, aperta o chapéu contra o peito e diz apenas: --Quando Deus quiser!
As últimas arribações haviam debandadas em direção a linha do horizonte que dividia o azul do céu com o vermelho da terra, deixando para trás toda aquela desgraçareira onde aqueles pobres diabos ainda teimavam em viver . Não havia mais água e nem mais o que comer. Restara à aqueles infelizes moribundos apenas a esperança de um milagre que infelizmente não veio.
Um a um seus filhos, também, foram morrendo. Um a um ele os foi enterrando como se enterra uma semente. Não tinha mais lágrimas para chorar. Há muito o açude de seus olhos haviam secado, assim como secaram as escassas e imundas poças d água que agonizavam silenciosa por entre a caatinga ressequida daquele maldito lugar.
Solitário e debilitado, exalando o odor tétrico da morte, deitou-se ao lado das covas onde havia enterrado os filhos e a mulher. Completamente transtornado e fora de si, balbuciou uma triste canção, e ficou ali, inutilmente, esperando pela chuva na esperança vã de vê-los brotarem novamente através do chão seco do sertão.
(*) Ivan Machado (nome de registro) nasceu em 13 de agosto de 1953 na cidade de São Paulo/SP. Atualmente é funcionário público municipal na área da educação e para toda a vida, é poeta. Ferretti (sobrenome que adotou de sua mãe, como poeta) escreve poemas, crônicas satíricas, líricas, críticas e contos infantis e adultos. A sua primeira experiência literária deu-se aos 10 anos no quarto ano primário, hoje ensino fundamental I. Nessa ocasião a professorinha aplicou-lhe nota zero por não acreditar ter sido ele o autor da poesia que ela pedira. Na época chorou muito. Hoje se lembra com orgulho. Ao longo dos anos, a escrita literária foi ocorrendo de acordo com a visão do mundo criada pelo autor. Hoje, é membro da Sociedade dos Poetas de Vila Prudente e parte integrante da ala dos compositores do Bloco Carnavalesco Flor do Morro de Vila Alpina da qual é um dos fundadores e autor do primeiro samba enredo dessa escola em parceria com seu admirável amigo Mestre Natalino.